• William Andreotti Jr.

A arte em uma empresa. Oportunidade ou besteira?

Atualizado: Mai 29



O que a arte tem a ver com o dia a dia em sua empresa?


Se for uma empresa relacionada ao meio artístico ok, faz parte do negócio. Mas e se o seu ramo de negócios for outro? Existe alguma conexão da sua empresa e suas atividades com alguma forma de arte?


Na maior parte das empresas que conheci não havia nada. Nenhuma conexão entre negócios, gestão e arte. Penso que é um desperdício de oportunidades.


Quando comandei a área de RH de uma empresa cheguei a intuir que a arte poderia ser fator de agregação de pessoas e reconhecimento de talentos não imediatamente considerados nas funções e competências habituais.


Atarefado nas questões que se impunham como prioritárias infelizmente não avancei nessa reflexão e acredito que desperdicei uma oportunidade relevante. Em outras empresas para as quais prestei consultoria até cheguei a sugerir a possibilidade, mas logo foi rechaçada pois priorizavam resultados imediatos.


Empresas podem investir em arte como parte de sua estratégia de marca, eu gosto disso. Nossa população de forma geral tem pouco contato com a arte, e esse pouco contato impede que o interesse se aprofunde. Patrocínios podem facilitar e ampliar o acesso das produções artísticas às pessoas.


A arte não está na lista de prioridades de uma população carente de tanta coisa e por isso penso que ela deveria ser oferecida em abundância, despertando novos talentos e gostos. A arte tem o poder de influenciar diretamente a cultura de um povo, mesmo sendo parte dessa cultura. Um ciclo que enriquece a sociedade e contribui para o seu desenvolvimento.


Existem críticas legítimas às políticas de incentivo da cultura e não pretendo avançar por esse caminho. Não trato de política nesse texto, mas de estimulo a arte de muitas formas e também na busca de uma sintonia de oportunidades entre a arte e as pessoas, através de empresas que podem se beneficiar diretamente dos resultados possíveis.




As muitas formas de expressão artística estimulam a criatividade e só por isso já valeriam a pena. Podem também contribuir para pessoas que precisam falar em público, por exemplo. Ou para uma maior sensibilidade estética a ser aplicada em produtos e serviços da empresa.


Uma das possibilidades é de apoio e patrocínio, como falei. Outra seria adotar premiações para a equipe baseada de alguma forma de arte: premiar desempenhos com livros, ingressos para exposições, peças de teatro, cinemas, shows. Mas podemos ir bastante além disso.


A arte poderia ser incentivada dentro das empresas através de programas de estimulo a talentos internos. Ou cursos livres poderiam ser oferecidos sem expectativas imediatas de retorno, na certeza de que ele virá, mesmo que transformado em aspectos subjetivos.


Nas celebrações das empresas acabamos descobrindo um colega que toca violão, outro que canta. Se investigarmos um pouco vamos descobrir um que escreve poesias, outro faz composições, um terceiro pinta quadros, alguém é fotógrafo de paisagens, uma colega faz cerâmica, outra faz teatro em um grupo amador.


Talentos escondidos, que deixam para as suas “vidas pessoais” a sua realização artística e a manifestação dessas habilidades.


Eu percebi isso em várias empresas, conversando com as pessoas sobre seus hobbies. Muitas empresas são recheadas de talentos artísticos não manifestos na dureza e complexidade do trabalho diário. As pessoas deixam seus dons para os seus hobbies e não os misturam com a “seriedade da vida profissional”.


Entretanto, as soft skills são cada vez mais valorizadas pelas empresas. Criatividade, pensamento crítico, capacidade de comunicação, flexibilidade cognitiva, inteligência emocional, capacidade de lidar com a complexidade, capacidade de adaptação a ambientes multiculturais, colaboração e até a capacidade de trabalhar em equipe são capacidades e características muito fortalecidas pela arte em suas manifestações e atividades.


A arte é uma das características marcantes da civilização, utilizada para propagar ensinamentos e valores culturais relevantes para a sociedade. E isso vem desde as pinturas rupestres nas cavernas.


O período de isolamento pela pandemia nos fez perceber ainda mais a importância da arte. Impossível enfrentar essa condição sem música, sem um livro, sem um filme ou seriado. Podemos discutir a qualidade da arte, sempre de forma subjetiva, mas nunca podemos desprezar a sua importância, seja como entretenimento ou como manifestação cultural.


As nações se integram pelas suas culturas. O Brasil apesar dos abalos recentes em sua imagem ainda é reconhecido pela excelência de sua música, principalmente pela bossa nova, e também pela sua literatura. Em poucos meses em Portugal conheci mais pessoas que amam Jorge Amado e Clarice Lispector do que em anos vivendo no Brasil.


Não é novidade que o american way of life foi ensinado ao mundo por Hollywood. E isso abriu mercado para as empresas americanas e seus produtos.




A cultura é um aspecto tão determinante de um grupo de pessoas que aplicamos o mesmo conceito à empresas. Toda empresa tem um jeito de ser, de trabalhar, de fazer negócios. Esses aspectos são amplamente estudados, existe muita literatura de negócios séria sobre cultura empresarial.


Por que “uma arte de dentro de uma empresa” não poderia influenciar a sua própria cultura e propagá-la? Não seria uma forma de compartilhar valores e até de incorporar outros novos? Mudanças culturais são difíceis e lentas, mas às vezes podem ser necessárias à sobrevivência da empresa. A arte pode ser um mecanismo dessa transformação.


Não uma arte por encomenda, não é isso que proponho, mas a livre manifestação artística daqueles que vivem aquela realidade, compactuam com aqueles valores, existentes ou novos, e vivem por objetivos comuns.


Essa é uma reflexão para a qual não tenho uma proposta clara, lamento. Pode ser uma visão utópica e mais artística do que prática, mas o mundo já mudou mais do que podemos perceber com clareza hoje. E nem falo da pandemia, mas de uma nova visão que se espalha, mais sensível e menos pragmática. E isso nada tem de ruim.


Penso que momentos favoráveis à arte possam ser induzidos. Happy hours com música tocada pelos próprios funcionários, saraus de poesias, exposições de fotografias e quadros dos colaboradores nos espaços da empresa, criação de uma página no site da empresa para divulgar a arte de seus funcionários. Lanço algumas possibilidades aqui, mas devem existir muitas outras formas criativas – perdão pela redundância – de trazer a arte para o ambiente profissional.


Falamos muito sobre humanização nas relações e processos empresariais. A arte é uma das coisas que nos qualifica como humanidade. A arte conta histórias, transmite aprendizados e com eles princípios e valores. É um instrumento poderoso de perpetuação e transformação da cultura e dos costumes. A arte alivia as pressões dos desafios que a vida traz, iluminando a realidade e encorajando as pessoas a enfrentar com serenidade os seus próprios dramas e problemas. A arte ajuda a manter a lucidez e a renovar as esperanças.


Sou daqueles que defende a poesia. Que reconhece a importância fundamental de algumas canções em momentos dolorosos da vida. A dor daqueles momentos pode até já ter passado mas a importância do conforto e consolo oferecido por essas canções nunca será esquecida.


A maturidade adquirida pelas mudanças de vida me mostrou que a pressa de viver, a ambição pelo sucesso e o orgulho foram armadilhas revestidas de racionalidades que me foram impostas por padrões de excelência profissionais que afastaram as minhas sensibilidades, relegando-as aos momentos íntimos ou nem a eles. Uma sensibilidade que provavelmente teria feito diferença positiva na minha carreira e nas minhas relações.


A sensibilidade humana nesses tempos é ainda mais necessária, para afastar a sombra da morte advinda da maior crise das nossas gerações. Tudo isso vai passar, mas seremos outros depois. Se seremos melhores ou piores em grande parte é uma questão de escolha.


Precisamos exaltar a vida e nada faz isso melhor do que a arte.

William Andreotti Jr.

Escritor, consultor, mentor e produtor de conteúdos sobre Administração, Negócios, Recursos Humanos e Carreiras. Defensor de uma visão humanizada para o mundo dos negócios e carreiras profissionais baseadas em princípios e valores.

Este texto foi desenvolvido a partir do apoio da Populis em seus esforços para desenvolver e disseminar conhecimentos relevantes da área de Recursos Humanos. A Populis é uma empresa que oferece soluções inteligentes para Folha de Pagamento.

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